Conferência “O saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”, ministrada por Salim Mokaddem, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Montpellier.

100 anos de Michel Foucault

Cem anos atrás, mais especificamente em 15 de outubro de 1926, nasceu Paul-Michel Foucault. Com formação em psicologia e filosofia, professor de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984 (ano de sua morte), Foucault é nome indispensável para a reflexão em torno das muitas complexidades implicadas no enigma incessante da subjetividade.

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Em reconhecimento a esse legado, o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e o Instituto Humanitas de Estudos Integrados da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) promoveram a conferência “O saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”, ministrada por Salim Mokaddem, doutor em Filosofia e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Montpellier.

Realizada no dia 20 de agosto no auditório da Biblioteca Zila Mamede, com o apoio da Embaixada da França no Brasil e do CNPq, a conferência foi mediada pelos professores Alípio de Sousa Filho (UFRN) e Avelino Aldo de Lima Neto (IFRN) em um memorável acontecimento que serviu não só para a revisão de algumas das contribuições do pensamento foucaultiano, especialmente em sua relação com o dispositivo pedagógico, como também para o relançamento do livro de Salim Mokaddem, intitulado “Foucault: uma vida filosófica” e traduzido por Lima Neto.

Foucault: uma vida filosófica

Atravessando as “três direções” que atravessam toda a obra de Foucault – uma epistemologia das ciências do ser humano, uma análise das práticas institucionais e dos jogos de poder, e a constituição do sujeito de conhecimento e as relações entre verdade, poder e si mesmo – o ensaio de Salim Mokaddem contribui para reatualizar a vitalidade do pensamento foucaultiano no que ele tem de “explorador” e de “sentinela”.

O ensaio de Salim Mokkadem contribui para reatualizar a vitalidade do pensamento foucaultiano.

Nesse sentido, resta a conclusão que de Foucault ficou, inclusive, a abertura a temáticas e abordagens com as quais o pensador em vida não pode se deparar, como a psicopolítica digital ou a crítica decolonial. Por meio de toda sua reflexão acerca do saber-poder-ser, Foucault continua nos possibilitando amplos questionamentos, como, por exemplo, pensar as redes sociais e Big Techs como novas formas de vigilância e controle, ou ainda atentar para outros discursos a propor outras formas de ser e estar no mundo: de forma aparentemente paradoxal, para além de sua condição de homem branco francês, o autor e pensador Foucault nos fornece um cabedal teórico e conceitual que agencia uma ponte para a consciência de outros saberes que não necessariamente os do norte global.

A era da extração

Assim, dentre tantas aprendizagens possíveis, cem anos depois, Foucault segue vivo, muito vivo e vivaz, mostrando-nos que é sempre possível recusar aquilo em que/para o que fomos enunciados, treinados e ensinados a ser.

Cellina Muniz é escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.